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gostei muito dessa foto que fiz da biblioteca da cidade. os livros separados para a organização, a luz do espaço; tudo. achei que esse registro combinaria com a publicação sobre o livro & autora de hoje.

 

Patti Smith é uma artista multi norte-americana que eu conheci através das palavras de uma amiga, a Ka. dentre as obras da escritora, o livro "só garotos" me apareceu e narra fases, entre altos e baixos, marcantes da vida da artista.

antes de ler algum livro, gosto de advinhar o que aquela obra quer dizer. olho a capa, o título. e por não conhecer a Patti, imaginei que eu fosse lidar com páginas infinitas de um romance vivido na adolescência. tipo um romance como qualquer outro.


Smith me mostrou um amor difícil e isso, confesso, me trouxe alguns incômodos - mas esse sentimento, essa forma de amar, logo foi compreendida por aqui e me ajudou a administrar o que senti.


ela jovem, pronta para tentar descobrir quem se é. ela jovem, se vê artista. se observa desenhista, escritora, modelo, fotógrafa. se viu sempre sonhadora, mesmo que em alguns momentos a vida lhe fizesse duvidar se seria ou não capaz de ir para algum lugar. acho que foi esse ponto aqui que a autora "me olhou", já que essa vontade de fazer tudo por vezes habita em mim (e isso tá longe de ser romântico).

 

crescida numa família modesta de Nova Jersey, Patti trabalhou em uma fábrica e entregou seu primeiro filho para adoção, antes de se mandar para Nova York, com vinte anos, um livro de Rimbaud na mala e nada no bolso. era o final dos anos 1960, e Patti teve de se virar como pôde: morou nas ruas de Manhattan, dividiu comida com um mendigo, trabalhou e dormiu em livrarias e até roubou os colegas de trabalho, enquanto conhecia boa parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera contestadora do famoso "verão do amor". foi então que conheceu o rapaz de cachos bastos que seria sua primeira grande paixão: o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de aids, em 1989 / resumo disponível no site oficial do grupo Companhia das Letras


eu tive a impressão de que Patti abraçou o mundo. abraçava até quando achava que não podia. para ela, conhecer Robert foi um acaso feliz. mesmo que em alguns momentos ambos vivessem desencontros com seus sentimentos, eu entendi que eles estavam dispostos a nunca deixar a amizade ficar em segundo plano. só que eu via essa forma de amar muito torta e por vezes abusiva. isso me incomodou e me fez parar de ler um pouco para refletir sobre relacionamentos. por outro lado, foi aí que achei entender a essência do livro. a obra não é um romance, não é sobre amores dispostos um ao outro da forma mais legal possível. o livro é sobre a história real de amigos que sonharam e amaram. amaram tudo e a muitos. 


Patti e Robert eram um, mesmo longe quando perto. 


"nos períodos em que me sentia por baixo, perguntava-me qual era o sentido em criar arte. para quem? estávamos animando Deus? estávamos falando com nós mesmos? e qual era a meta final? ter a própria obra engaiolada nos grandes zoológicos da arte — o Modern, o Met, o Louvre? 

eu ansiava por honestidade, mas encontrava desonestidade em mim mesma. por que se comprometer com a arte? pela autorrealização ou pela arte em si mesma? parecia um capricho somar-se à massa de excessos, a não ser que isso oferecesse iluminação. muitas vezes eu me sentava e tentava escrever ou desenhar, mas toda aquela agitação maníaca nas ruas, somada à Guerra do Vietnã, fazia meus esforços parecerem sem sentido. eu não conseguia me identificar com movimentos políticos. quando tentava participar de algum, sentia-me tomada por outra forma de burocracia. perguntava-me se alguma coisa que fazia tinha importância"


tenho a impressão de que ver a vida por vários ângulos e formas me faz amar biografias. Patti só me mostrou isso. estamos de passagem. precisamos fazer algo que nos impulsione. um detalhe sequer. uma ponta inspiradora. quando ela disse que gostava de pegar folhas e desenhar cenas da sua vida eu parecia estar me lendo. criar, mesmo que com nossos medos e desesperos. apenas criar. foi o que Patti deixou.


"só garotos" não é um romance, mas é um livro sobre amor.  amar a tudo. coisas, pessoas, momentos. ou seja lá o que você ache que mereça o seu amor.

 



ficha do livro / título original: Just kids  páginas: 280 lançamento: 25/11/2010 selo: Companhia das Letras



"só garotos", um livro de patti smith

9 de junho de 2021

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gostei muito dessa foto que fiz da biblioteca da cidade. os livros separados para a organização, a luz do espaço; tudo. achei que esse registro combinaria com a publicação sobre o livro & autora de hoje.

 

Patti Smith é uma artista multi norte-americana que eu conheci através das palavras de uma amiga, a Ka. dentre as obras da escritora, o livro "só garotos" me apareceu e narra fases, entre altos e baixos, marcantes da vida da artista.

antes de ler algum livro, gosto de advinhar o que aquela obra quer dizer. olho a capa, o título. e por não conhecer a Patti, imaginei que eu fosse lidar com páginas infinitas de um romance vivido na adolescência. tipo um romance como qualquer outro.


Smith me mostrou um amor difícil e isso, confesso, me trouxe alguns incômodos - mas esse sentimento, essa forma de amar, logo foi compreendida por aqui e me ajudou a administrar o que senti.


ela jovem, pronta para tentar descobrir quem se é. ela jovem, se vê artista. se observa desenhista, escritora, modelo, fotógrafa. se viu sempre sonhadora, mesmo que em alguns momentos a vida lhe fizesse duvidar se seria ou não capaz de ir para algum lugar. acho que foi esse ponto aqui que a autora "me olhou", já que essa vontade de fazer tudo por vezes habita em mim (e isso tá longe de ser romântico).

 

crescida numa família modesta de Nova Jersey, Patti trabalhou em uma fábrica e entregou seu primeiro filho para adoção, antes de se mandar para Nova York, com vinte anos, um livro de Rimbaud na mala e nada no bolso. era o final dos anos 1960, e Patti teve de se virar como pôde: morou nas ruas de Manhattan, dividiu comida com um mendigo, trabalhou e dormiu em livrarias e até roubou os colegas de trabalho, enquanto conhecia boa parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera contestadora do famoso "verão do amor". foi então que conheceu o rapaz de cachos bastos que seria sua primeira grande paixão: o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de aids, em 1989 / resumo disponível no site oficial do grupo Companhia das Letras


eu tive a impressão de que Patti abraçou o mundo. abraçava até quando achava que não podia. para ela, conhecer Robert foi um acaso feliz. mesmo que em alguns momentos ambos vivessem desencontros com seus sentimentos, eu entendi que eles estavam dispostos a nunca deixar a amizade ficar em segundo plano. só que eu via essa forma de amar muito torta e por vezes abusiva. isso me incomodou e me fez parar de ler um pouco para refletir sobre relacionamentos. por outro lado, foi aí que achei entender a essência do livro. a obra não é um romance, não é sobre amores dispostos um ao outro da forma mais legal possível. o livro é sobre a história real de amigos que sonharam e amaram. amaram tudo e a muitos. 


Patti e Robert eram um, mesmo longe quando perto. 


"nos períodos em que me sentia por baixo, perguntava-me qual era o sentido em criar arte. para quem? estávamos animando Deus? estávamos falando com nós mesmos? e qual era a meta final? ter a própria obra engaiolada nos grandes zoológicos da arte — o Modern, o Met, o Louvre? 

eu ansiava por honestidade, mas encontrava desonestidade em mim mesma. por que se comprometer com a arte? pela autorrealização ou pela arte em si mesma? parecia um capricho somar-se à massa de excessos, a não ser que isso oferecesse iluminação. muitas vezes eu me sentava e tentava escrever ou desenhar, mas toda aquela agitação maníaca nas ruas, somada à Guerra do Vietnã, fazia meus esforços parecerem sem sentido. eu não conseguia me identificar com movimentos políticos. quando tentava participar de algum, sentia-me tomada por outra forma de burocracia. perguntava-me se alguma coisa que fazia tinha importância"


tenho a impressão de que ver a vida por vários ângulos e formas me faz amar biografias. Patti só me mostrou isso. estamos de passagem. precisamos fazer algo que nos impulsione. um detalhe sequer. uma ponta inspiradora. quando ela disse que gostava de pegar folhas e desenhar cenas da sua vida eu parecia estar me lendo. criar, mesmo que com nossos medos e desesperos. apenas criar. foi o que Patti deixou.


"só garotos" não é um romance, mas é um livro sobre amor.  amar a tudo. coisas, pessoas, momentos. ou seja lá o que você ache que mereça o seu amor.

 



ficha do livro / título original: Just kids  páginas: 280 lançamento: 25/11/2010 selo: Companhia das Letras



após um ano, a biblioteca da cidade abriu. já falei inúmeras vezes sobre ela por aqui. o palacete secular de Maceió (um dos, na verdade) é o meu favorito para estudar, criar ou simplesmente admirar. e parece que dessa vez a emoção de retornar para lá foi diferente. foi como se eu tivesse me dado conta de que algo conseguiu me separar da poesia. e conseguiu, pois essa coisa é a pandemia. ver um canto público fechado, ver hospitais cheios, o desgoverno que esse país tem. isso dói o coração. por isso, conforme fui subindo as escadas, eu fiquei emotiva. mas logo veio uma sensação de alívio. nem visitei outros andares. abracei o primeiro, a única mesa disponível. coloquei um caderno, a caneta, a câmera e fui atrás de leituras novas. 

nesse meio tempo de matar a saudade e fazer leituras, fui conversar com funcionários e descobri que agora podemos levar os livros para casa. resolvi olhar alguns livros, mas só levá-los em outro dia. 



esse, sem dúvidas, será o que levarei comigo. se chama "Árvores notáveis: 200 anos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro". estou apaixonada. como o nome diz, é uma edição comemorativa. fui pesquisar e é uma obra rara.

o motivo para eu achar essa versão especial é o seguinte: a obra é inteira ilustrada. são desenhos feitos por Malena Barretto e Paulo Ormindo. a maior parte das plantas que vemos muitas vezes nas ruas a decorar casas e calçadas estão em cor e forma nessa obra. 

a cada página, eu dei um sorriso diferente. há a história por trás de cada espécie; a história por trás da ilustração botânica (e que eu ainda não conhecia). especial demais encontrar essa criação. 




veja a amostra disponibilizada pela Andrea Jakobsson Estúdio <3




com a saudade, aproveitei também para gravar algumas cenas da semana. tenho tentado registrar um pouco dos dias numa maneira de desacelerar e reparar mais nas coisas. nem sempre consigo, mas tento. faz bem para a mente, faz bem ao coração (: 




vejo vocês em breve.

o livro que eu queria na estante

25 de maio de 2021

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após um ano, a biblioteca da cidade abriu. já falei inúmeras vezes sobre ela por aqui. o palacete secular de Maceió (um dos, na verdade) é o meu favorito para estudar, criar ou simplesmente admirar. e parece que dessa vez a emoção de retornar para lá foi diferente. foi como se eu tivesse me dado conta de que algo conseguiu me separar da poesia. e conseguiu, pois essa coisa é a pandemia. ver um canto público fechado, ver hospitais cheios, o desgoverno que esse país tem. isso dói o coração. por isso, conforme fui subindo as escadas, eu fiquei emotiva. mas logo veio uma sensação de alívio. nem visitei outros andares. abracei o primeiro, a única mesa disponível. coloquei um caderno, a caneta, a câmera e fui atrás de leituras novas. 

nesse meio tempo de matar a saudade e fazer leituras, fui conversar com funcionários e descobri que agora podemos levar os livros para casa. resolvi olhar alguns livros, mas só levá-los em outro dia. 



esse, sem dúvidas, será o que levarei comigo. se chama "Árvores notáveis: 200 anos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro". estou apaixonada. como o nome diz, é uma edição comemorativa. fui pesquisar e é uma obra rara.

o motivo para eu achar essa versão especial é o seguinte: a obra é inteira ilustrada. são desenhos feitos por Malena Barretto e Paulo Ormindo. a maior parte das plantas que vemos muitas vezes nas ruas a decorar casas e calçadas estão em cor e forma nessa obra. 

a cada página, eu dei um sorriso diferente. há a história por trás de cada espécie; a história por trás da ilustração botânica (e que eu ainda não conhecia). especial demais encontrar essa criação. 




veja a amostra disponibilizada pela Andrea Jakobsson Estúdio <3




com a saudade, aproveitei também para gravar algumas cenas da semana. tenho tentado registrar um pouco dos dias numa maneira de desacelerar e reparar mais nas coisas. nem sempre consigo, mas tento. faz bem para a mente, faz bem ao coração (: 




vejo vocês em breve.

a escritora Ana Holanda me abraçou. 


foi um abraço de surpresa, sem planejar. enquanto eu naveguei para buscar leituras, um livro sobre escrita me olhou. um olhar de chamado me convidando para lê-lo com o coração. então eu fui. eu caminhei até ele e fui. 


já contei essa história algumas vezes, mas quando eu tinha doze anos tive uma professora de português que me machucou muito. e bem, não só a mim, mas todos os meus colegas de turma. ela acreditava que a punição era a melhor saída para absolutamente tudo. tenho poucas lembranças boas dos tempos em que ela me ensinava. dentre essas coisas legais, lembro que ela realizava algumas atividades práticas sobre escrita. eu amava. alguns mundos surgiam na minha imaginação e eu amava escrever. lembro de ir para o quadro escrever (várias vezes), e lembro de ela me punir sem motivo algum também. em algum momento da vida lembrar dessas coisas me atrapalhou demais. principalmente porque eu não sabia dizer aos meus pais sobre nada que acontecia, na verdade, eu nem sabia o que eu sentia. 


em uma dessas atividades, ela nos pediu para escrever uma manchete de jornal. algo que viesse de dentro de nós. então escrevi sobre maternidade. sobre uma mãe que paria após anos de espera. não sei, foi algo que veio para a folha. algo que nasceu ali. e no instante em que a professora me leu, ela me olhou dos pés a cabeça. em silêncio. devagar, perguntou: "foi você mesma quem escreveu?". eu acenei com a cabeça que sim. ela ficou em silêncio. pela primeira vez ela ficou sem palavras.


a escrita faz isso. ela habita. se ela te toca. ela logo atinge o outro e esse afeto vai se espalhando como algo que floresce. 

como vi na leitura de "Como se encontrar na escrita: o caminho para despertar a escrita afetuosa em você", concordo que esse afeto, essa força das palavras vai nos tomando porque 

o afeto é uma urgência essencial de todos os dias

e ler faz isso com a gente. essa morada das letras em nós é algo difícil de ser tirado. e se essas palavras saem, se essas palavras vão logo morar no papel, significa que nunca deixaram de morar dentro de nós. sinto isso e senti muito enquanto Ana me trazia isso em seus escritos.


a obra de Ana Holanda não é um livro-tutorial sobre como você escrever bem muito rapidamente. o escrito de Ana é uma prosa sobre a vida e em como as coisas que estão ao nosso lado são as nossas maiores inspirações. ela explana isso, traz histórias da vida dela e de outros, mostra como o cotidiano vai falando ao nosso ouvido. nos faz ver o que por vezes não enxergamos.

a escrita, seja que natureza for, nasce primeiro dentro da gente, percorre nossas caixas internas, nossos medos, desejos, anseios, e depois é que ganha o mundo [...] um texto, afinal, está vinculado à pessoa que você é



queria dizer para a Ana que por conta dela decidi como usaria dois pequenos cadernos que eu guardava aqui. em um, resolvi criar um caderno de anotações sobre coisas que despertam a minha alma. nele, só vou escrever sobre coisas que me reavivam. notas que abraçam. já no segundo caderno, pensei que seria bom criar, finalmente, um caderno somente sobre imagem. falar de fotografia e sobre como ela vai atingindo o mundo é algo que me alegra demais. os últimos anos representam muito disso que sinto sobre a fotografia e o audiovisual. desde 2019 tenho me dedicado a estudar e fazer imagem. esse caderno vai ser o meu paraíso. 

coincidentemente, tenho feito um curso importante e a recomendação da professora foi: "tenham um caderno e registrem". olhei pra tela, enquanto a professora continuava falando, e pensei o tanto que eu já fazia isso. o tanto que é bom criar coisas legais por meio da escrita. do fundo do meu coração eu digo: escrevam sempre, não parem. a escrita salva. 


seguindo essa onda de afeto, foi por indicação da Ka, dona do maravilhoso Kaffeina & fotógrafa que amo, que conheci a marca Folk Books, um ateliê bonito nascido em 2014 e criado pela designer Eduarda Amaral e pelo escritor Eduardo Furlan. por lá, comprei o meu midori triplo (tão lindo!) que coube bem o kindle + cadernos + canetas. feliz demais por levar comigo as minhas belezas para ler e escrever. já os cadernos, são dos parceiros queridos da marca Filiperson.





obrigada pela companhia no post de hoje, viu? o meu desejo é que as palavras estejam sempre ao lado de vocês (de fato, elas sempre estarão <3).

"a escrita lhe pertence porque nunca deixou de lhe habitar"

31 de março de 2021

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a escritora Ana Holanda me abraçou. 


foi um abraço de surpresa, sem planejar. enquanto eu naveguei para buscar leituras, um livro sobre escrita me olhou. um olhar de chamado me convidando para lê-lo com o coração. então eu fui. eu caminhei até ele e fui. 


já contei essa história algumas vezes, mas quando eu tinha doze anos tive uma professora de português que me machucou muito. e bem, não só a mim, mas todos os meus colegas de turma. ela acreditava que a punição era a melhor saída para absolutamente tudo. tenho poucas lembranças boas dos tempos em que ela me ensinava. dentre essas coisas legais, lembro que ela realizava algumas atividades práticas sobre escrita. eu amava. alguns mundos surgiam na minha imaginação e eu amava escrever. lembro de ir para o quadro escrever (várias vezes), e lembro de ela me punir sem motivo algum também. em algum momento da vida lembrar dessas coisas me atrapalhou demais. principalmente porque eu não sabia dizer aos meus pais sobre nada que acontecia, na verdade, eu nem sabia o que eu sentia. 


em uma dessas atividades, ela nos pediu para escrever uma manchete de jornal. algo que viesse de dentro de nós. então escrevi sobre maternidade. sobre uma mãe que paria após anos de espera. não sei, foi algo que veio para a folha. algo que nasceu ali. e no instante em que a professora me leu, ela me olhou dos pés a cabeça. em silêncio. devagar, perguntou: "foi você mesma quem escreveu?". eu acenei com a cabeça que sim. ela ficou em silêncio. pela primeira vez ela ficou sem palavras.


a escrita faz isso. ela habita. se ela te toca. ela logo atinge o outro e esse afeto vai se espalhando como algo que floresce. 

como vi na leitura de "Como se encontrar na escrita: o caminho para despertar a escrita afetuosa em você", concordo que esse afeto, essa força das palavras vai nos tomando porque 

o afeto é uma urgência essencial de todos os dias

e ler faz isso com a gente. essa morada das letras em nós é algo difícil de ser tirado. e se essas palavras saem, se essas palavras vão logo morar no papel, significa que nunca deixaram de morar dentro de nós. sinto isso e senti muito enquanto Ana me trazia isso em seus escritos.


a obra de Ana Holanda não é um livro-tutorial sobre como você escrever bem muito rapidamente. o escrito de Ana é uma prosa sobre a vida e em como as coisas que estão ao nosso lado são as nossas maiores inspirações. ela explana isso, traz histórias da vida dela e de outros, mostra como o cotidiano vai falando ao nosso ouvido. nos faz ver o que por vezes não enxergamos.

a escrita, seja que natureza for, nasce primeiro dentro da gente, percorre nossas caixas internas, nossos medos, desejos, anseios, e depois é que ganha o mundo [...] um texto, afinal, está vinculado à pessoa que você é



queria dizer para a Ana que por conta dela decidi como usaria dois pequenos cadernos que eu guardava aqui. em um, resolvi criar um caderno de anotações sobre coisas que despertam a minha alma. nele, só vou escrever sobre coisas que me reavivam. notas que abraçam. já no segundo caderno, pensei que seria bom criar, finalmente, um caderno somente sobre imagem. falar de fotografia e sobre como ela vai atingindo o mundo é algo que me alegra demais. os últimos anos representam muito disso que sinto sobre a fotografia e o audiovisual. desde 2019 tenho me dedicado a estudar e fazer imagem. esse caderno vai ser o meu paraíso. 

coincidentemente, tenho feito um curso importante e a recomendação da professora foi: "tenham um caderno e registrem". olhei pra tela, enquanto a professora continuava falando, e pensei o tanto que eu já fazia isso. o tanto que é bom criar coisas legais por meio da escrita. do fundo do meu coração eu digo: escrevam sempre, não parem. a escrita salva. 


seguindo essa onda de afeto, foi por indicação da Ka, dona do maravilhoso Kaffeina & fotógrafa que amo, que conheci a marca Folk Books, um ateliê bonito nascido em 2014 e criado pela designer Eduarda Amaral e pelo escritor Eduardo Furlan. por lá, comprei o meu midori triplo (tão lindo!) que coube bem o kindle + cadernos + canetas. feliz demais por levar comigo as minhas belezas para ler e escrever. já os cadernos, são dos parceiros queridos da marca Filiperson.





obrigada pela companhia no post de hoje, viu? o meu desejo é que as palavras estejam sempre ao lado de vocês (de fato, elas sempre estarão <3).

 
li um texto da Hady essa semana. nele, ela conversou sobre a importância das nossas leituras seguirem o nosso ritmo. me identifiquei muito, pois sempre gostei de acompanhar pessoas legais na internet e a maioria dessas pessoas têm a leitura como um ponto essencial de suas vidas. muitas vezes eu via essas pessoas lendo alguns livros por semana, alguns em dias, e isso me fazia pensar se tinha algo errado comigo. e não, nunca teve. a noção de produção acelerada e resultados rápidos é um pensamento doente da sociedade. uma leitura a mais deve ser prazerosa e nos complementar de formas boas. abracei isso. abracei o meu tempo. hoje consigo ler alguns livros por vez. essa foi a maneira que me fez amar a leitura de novo após anos sem ler direito (sim, anos). vou aproveitar e deixar o trecho das palavras da Hadassah aqui quando ela disse que

ler precisa ser, preferencialmente, um processo de introversão e respeito, consigo mesmo e com a obra. portanto, antes de sentir culpa por não ler no mesmo ritmo ou quantia de outras pessoas por aí, entenda que é importante primeiro: acolher o seu ritmo e desfrutar cada minuto de leitura como um investimento, não como uma corrida.


essas palavras me trazem até aqui, e dessa vez meio falando sobre ritmos de leitura e meio sobre a minha leitura da semana. 

"a caderneta vermelha" é um romance de Antoine Laurain publicado em 2014. se passa em Paris quando Laure é assaltada e agredida, ficando inconsciente. em outro ponto da cidade a sua bolsa lilás é abandonada, mas encontrada por um livreiro chamado Laurent. numa tentativa de saber um pouco mais sobre a possível dona do pertence, ele resolve abrir a bolsa e ler os versos presentes na cadertena vermelha da mulher.

eu fiquei pensando o que eu sentiria se alguém achasse a minha bolsa. será que leriam tudo ou minimamente se preocupariam em saber quem eu era? não sei o que pensar, mas sei bem que assim como na obra de Antoine, uma cadertena vermelha está ao meu alcance para que palavras não fujam e sensações se eternizem. a leitura foi tão boa que já estou buscando mais obras do autor. vocês já o conheciam? assim que terminei de ler, tomei umas notas e quis trazer as minhas sensações para cá, ó:

• escrita leve (não sei bem o que significa isso, mas penso que é algo bom. é como se eu conseguisse abraçar as palavras sem dificuldade para compreendê-las)
• história fluida
• cenário parisiense
• referências literárias e culinárias da França
• veio na hora certa, justo com a minha volta aos estudos da língua francesa <3

não sei se romances leves cativam vocês, mas os motivos que me fizeram gostar de "a caderneta vermelha" me inspiraram a fotografar e escrever a publicação de hoje. 



{aproveitei a leitura e as cenas da semana para criar mais um diário visual em p&b <3 espero que todos esses detalhes inspirem vocês de alguma maneira}.


"a caderneta vermelha", um livro antoine laurain

24 de janeiro de 2021

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li um texto da Hady essa semana. nele, ela conversou sobre a importância das nossas leituras seguirem o nosso ritmo. me identifiquei muito, pois sempre gostei de acompanhar pessoas legais na internet e a maioria dessas pessoas têm a leitura como um ponto essencial de suas vidas. muitas vezes eu via essas pessoas lendo alguns livros por semana, alguns em dias, e isso me fazia pensar se tinha algo errado comigo. e não, nunca teve. a noção de produção acelerada e resultados rápidos é um pensamento doente da sociedade. uma leitura a mais deve ser prazerosa e nos complementar de formas boas. abracei isso. abracei o meu tempo. hoje consigo ler alguns livros por vez. essa foi a maneira que me fez amar a leitura de novo após anos sem ler direito (sim, anos). vou aproveitar e deixar o trecho das palavras da Hadassah aqui quando ela disse que

ler precisa ser, preferencialmente, um processo de introversão e respeito, consigo mesmo e com a obra. portanto, antes de sentir culpa por não ler no mesmo ritmo ou quantia de outras pessoas por aí, entenda que é importante primeiro: acolher o seu ritmo e desfrutar cada minuto de leitura como um investimento, não como uma corrida.


essas palavras me trazem até aqui, e dessa vez meio falando sobre ritmos de leitura e meio sobre a minha leitura da semana. 

"a caderneta vermelha" é um romance de Antoine Laurain publicado em 2014. se passa em Paris quando Laure é assaltada e agredida, ficando inconsciente. em outro ponto da cidade a sua bolsa lilás é abandonada, mas encontrada por um livreiro chamado Laurent. numa tentativa de saber um pouco mais sobre a possível dona do pertence, ele resolve abrir a bolsa e ler os versos presentes na cadertena vermelha da mulher.

eu fiquei pensando o que eu sentiria se alguém achasse a minha bolsa. será que leriam tudo ou minimamente se preocupariam em saber quem eu era? não sei o que pensar, mas sei bem que assim como na obra de Antoine, uma cadertena vermelha está ao meu alcance para que palavras não fujam e sensações se eternizem. a leitura foi tão boa que já estou buscando mais obras do autor. vocês já o conheciam? assim que terminei de ler, tomei umas notas e quis trazer as minhas sensações para cá, ó:

• escrita leve (não sei bem o que significa isso, mas penso que é algo bom. é como se eu conseguisse abraçar as palavras sem dificuldade para compreendê-las)
• história fluida
• cenário parisiense
• referências literárias e culinárias da França
• veio na hora certa, justo com a minha volta aos estudos da língua francesa <3

não sei se romances leves cativam vocês, mas os motivos que me fizeram gostar de "a caderneta vermelha" me inspiraram a fotografar e escrever a publicação de hoje. 



{aproveitei a leitura e as cenas da semana para criar mais um diário visual em p&b <3 espero que todos esses detalhes inspirem vocês de alguma maneira}.


dois mil e vinte me aproximou das temáticas que eu anotava enquanto concluía a graduação em Serviço Social. lembro que o bloco de anotações estava repleto de "como eu posso investigar a fotografia? qual caminho percorrer nesse sentido de pesquisa?". esses novos olhares me levaram à faculdade de novo, só que agora enquanto jornalista em formação e pesquisadora em fotografia num grupo composto por mulheres do país todo. me alegro a cada descoberta, trecho anotado, dúvidas que surgem. e nesse meio bonito de novas autoras a serem descobertas e séries fotográficas para admirar, foi a obra de Virgínia Woolf, Um teto todo seu, que conheci primeiro. com uma escrita que me acolheu e imagens feitas durante a leitura quero partilhar as próprias palavras de Woolf sobre autoconfiança, a insegurança masculina/tentativas de dominação para com nós mulheres e como esse sentimento se dava na época em que a palestra da autora foi escrita - observando o quanto isso ainda é tão presente nos dias de hoje. 


// sobre o livro: na década de 1920, Virgínia Woolf, já uma autora de renome, é convidada a palestrar em duas faculdades inglesas exclusivas para mulheres [...]. a partir do tema "As mulheres e a ficção", Woolf elege como foco de sua exposição a tradição imperativa do patriarcado, descortinando em que medida a falta de recursos financeiros e de legitimidade cultural a que as mulheres eram submetidas compunha um cenário desencorajador para que elas escrevessem ficção.



a vida para ambos os sexos [...] é árdua, difícil, uma luta perpétua. requer coragem e força gigantescas. mais que qualquer coisa, talvez, criaturas da ilusão que somos, ela requer confiança em si mesmo. sem autoconfiança, somos como bebês no berço. e de que modo podemos adquirir essa qualidade imponderável, que também é tão inestimável, o mais rápido possível? pensando que as outras pessoas são inferiores [...]. por isso a enorme importância para o patriarcado de ter que conquistar, ter de governar, de achar que um grande número de pessoas, metade da raça humana, na verdade, é por natureza inferior. deve ser realmente uma das principais fontes de seu poder. 

as mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural. sem esse poder, provavelmente a terra ainda seria pântanos e selvas.

seja qual for o seu uso nas sociedades civilizadas os espelhos são essenciais para todas as ações violentas e heróicas. é por isso que tanto Napoleão quando Mussolini insistiam tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, se elas não fossem inferiores, eles deixariam de crescer [...]. isso explica, em parte, a necessidade que as mulheres representam para os homens. e serve para explicar como eles ficam incomodados com as críticas delas, [...] pois se ela resolver falar a verdade, a figura refletida no espelho encolherá; sua disposição para a vida diminuirá.

a alegoria do espelho é de importância suprema porque recarrega a vitalidade, estimula o sistema nervoso. exclua isso e o homem morre como viciado em cocaína quando privado da droga.







hoje eu deixei que Virgínia falasse. me tocou de vários modos ter que lê-la pela primeira vez. falar sobre autoconfiança e a maneira perversa em como o patriarcado tenta nos convencer sobre as suas barbaridades é difícil, por outro lado, isso releva o tamanho da necessidade/importância que esses diálogos têm. apesar do ano em que esse ensaio foi escrito ainda é tão atual termos atenção e abraçar palavras como as de Woolf. algumas barreiras são maiores, por isso mesmo deixar em evidência essas conversas é sempre especial. 

aproveito e pergunto: vocês têm conseguido realizar leituras? qual livro marcou o caminho de vocês até aqui? 

autoconfiança e a teoria dos espelhos; versos de Virgínia Woolf em sua obra "Um teto todo seu"

11 de dezembro de 2020

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dois mil e vinte me aproximou das temáticas que eu anotava enquanto concluía a graduação em Serviço Social. lembro que o bloco de anotações estava repleto de "como eu posso investigar a fotografia? qual caminho percorrer nesse sentido de pesquisa?". esses novos olhares me levaram à faculdade de novo, só que agora enquanto jornalista em formação e pesquisadora em fotografia num grupo composto por mulheres do país todo. me alegro a cada descoberta, trecho anotado, dúvidas que surgem. e nesse meio bonito de novas autoras a serem descobertas e séries fotográficas para admirar, foi a obra de Virgínia Woolf, Um teto todo seu, que conheci primeiro. com uma escrita que me acolheu e imagens feitas durante a leitura quero partilhar as próprias palavras de Woolf sobre autoconfiança, a insegurança masculina/tentativas de dominação para com nós mulheres e como esse sentimento se dava na época em que a palestra da autora foi escrita - observando o quanto isso ainda é tão presente nos dias de hoje. 


// sobre o livro: na década de 1920, Virgínia Woolf, já uma autora de renome, é convidada a palestrar em duas faculdades inglesas exclusivas para mulheres [...]. a partir do tema "As mulheres e a ficção", Woolf elege como foco de sua exposição a tradição imperativa do patriarcado, descortinando em que medida a falta de recursos financeiros e de legitimidade cultural a que as mulheres eram submetidas compunha um cenário desencorajador para que elas escrevessem ficção.



a vida para ambos os sexos [...] é árdua, difícil, uma luta perpétua. requer coragem e força gigantescas. mais que qualquer coisa, talvez, criaturas da ilusão que somos, ela requer confiança em si mesmo. sem autoconfiança, somos como bebês no berço. e de que modo podemos adquirir essa qualidade imponderável, que também é tão inestimável, o mais rápido possível? pensando que as outras pessoas são inferiores [...]. por isso a enorme importância para o patriarcado de ter que conquistar, ter de governar, de achar que um grande número de pessoas, metade da raça humana, na verdade, é por natureza inferior. deve ser realmente uma das principais fontes de seu poder. 

as mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural. sem esse poder, provavelmente a terra ainda seria pântanos e selvas.

seja qual for o seu uso nas sociedades civilizadas os espelhos são essenciais para todas as ações violentas e heróicas. é por isso que tanto Napoleão quando Mussolini insistiam tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, se elas não fossem inferiores, eles deixariam de crescer [...]. isso explica, em parte, a necessidade que as mulheres representam para os homens. e serve para explicar como eles ficam incomodados com as críticas delas, [...] pois se ela resolver falar a verdade, a figura refletida no espelho encolherá; sua disposição para a vida diminuirá.

a alegoria do espelho é de importância suprema porque recarrega a vitalidade, estimula o sistema nervoso. exclua isso e o homem morre como viciado em cocaína quando privado da droga.







hoje eu deixei que Virgínia falasse. me tocou de vários modos ter que lê-la pela primeira vez. falar sobre autoconfiança e a maneira perversa em como o patriarcado tenta nos convencer sobre as suas barbaridades é difícil, por outro lado, isso releva o tamanho da necessidade/importância que esses diálogos têm. apesar do ano em que esse ensaio foi escrito ainda é tão atual termos atenção e abraçar palavras como as de Woolf. algumas barreiras são maiores, por isso mesmo deixar em evidência essas conversas é sempre especial. 

aproveito e pergunto: vocês têm conseguido realizar leituras? qual livro marcou o caminho de vocês até aqui? 

eu estava com saudades de conversar sobre o cotidiano através das lentes. esses tempos de pandemia me permitem olhar pra dentro de casa, pra dentro do quarto (e até de mim). tenho retomado estudos e planos, tenho voltado a ler. agora, por exemplo, tô entre um dos livros de Clarice e uma biografia sobre a vida de Frida. e quando essas leituras me pedem tempo, parto para "Frantumaglia" de Elena Ferrante. gosto quando as palavras me abraçam. sinto que a força das histórias me movem de uma maneira muito única. 


nesses mesmos caminhos acabei encontrando, após muitos meses, uma grande amiga. das coisas boas dessa vida, o maior presente que podemos ter é quando nossos amigos nos completam de muitas formas. a Aylla, por exemplo, tem um grande apreço pelas palavras assim como eu. e sem combinar nós duas acabamos lendo obras da mesma escritora, a Clarice Lispector.


de um lado eu com escrita e vida, do outro, a minha amiga com a edição comemorativa de a hora da estrela. sentimentos quase iguais partilhados por quem lê uma mesma autora. sentimentos nem sempre fáceis de serem encarados, mas que moram verdadeiramente aqui. então só sinto. só sentimos.  


"eu disse uma vez que escrever é uma maldição. não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva [...]. é uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. e é uma salvação. salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada"
, trecho do "capítulo" escrever (II) no livro escrita e vida, autoria de Clarice Lispector.


logo abaixo desse trecho destacado tem uma nota minha que diz "impactada, pois escrevi sobre a minha inutilidade hoje". e foi super verdade. não lembro como cheguei nesse ponto, mas eu só sentia. e é aí que mora a poesia do encontro. viver me pareceu mais leve com Clarice, fica mais leve com Aylla. a partilha daquilo que sufoca elimina algum fardo sem explicação.
 






vejo vocês em breve.

nós e clarice

14 de outubro de 2020

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eu estava com saudades de conversar sobre o cotidiano através das lentes. esses tempos de pandemia me permitem olhar pra dentro de casa, pra dentro do quarto (e até de mim). tenho retomado estudos e planos, tenho voltado a ler. agora, por exemplo, tô entre um dos livros de Clarice e uma biografia sobre a vida de Frida. e quando essas leituras me pedem tempo, parto para "Frantumaglia" de Elena Ferrante. gosto quando as palavras me abraçam. sinto que a força das histórias me movem de uma maneira muito única. 


nesses mesmos caminhos acabei encontrando, após muitos meses, uma grande amiga. das coisas boas dessa vida, o maior presente que podemos ter é quando nossos amigos nos completam de muitas formas. a Aylla, por exemplo, tem um grande apreço pelas palavras assim como eu. e sem combinar nós duas acabamos lendo obras da mesma escritora, a Clarice Lispector.


de um lado eu com escrita e vida, do outro, a minha amiga com a edição comemorativa de a hora da estrela. sentimentos quase iguais partilhados por quem lê uma mesma autora. sentimentos nem sempre fáceis de serem encarados, mas que moram verdadeiramente aqui. então só sinto. só sentimos.  


"eu disse uma vez que escrever é uma maldição. não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva [...]. é uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. e é uma salvação. salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada"
, trecho do "capítulo" escrever (II) no livro escrita e vida, autoria de Clarice Lispector.


logo abaixo desse trecho destacado tem uma nota minha que diz "impactada, pois escrevi sobre a minha inutilidade hoje". e foi super verdade. não lembro como cheguei nesse ponto, mas eu só sentia. e é aí que mora a poesia do encontro. viver me pareceu mais leve com Clarice, fica mais leve com Aylla. a partilha daquilo que sufoca elimina algum fardo sem explicação.
 






vejo vocês em breve.

laryssa andrade