nossa primeira oficina

*este texto foi publicado originalmente para o projeto alinhavos, no começo de 2026, no substack

eu me lembro que, durante o ensino fundamental, tive uma professora de artes maravilhosa, chamada Ana. ela inventava muitos jeitos de nos aproximar de muitas linguagens visuais — guardo minha tela pintada até hoje.

com ela, aprendi a manusear tinta, argila natural, customizar discos de vinil, CDs, criar com jornais e colagens. e de tudo, a colagem, especialmente, ficou comigo.

naquela época, recortávamos pequenos quadrados, desenhávamos numa folha e cobríamos os traços com cola e os pedaços picotados. anos depois, em 2018, retomei a colagem no digital, a partir das fotografias que fazia. mas há cerca de três anos me apaixonei novamente pelo recorte manual, pela técnica analógica.

e bem, chegamos aqui: à primeira oficina que ministrei.

inscrevi o projeto na PNAB inspirada pela memória coletiva e pelo território maceioense, um tema pessoalmente querido por mim. quando ele foi aprovado, começaram meses de preparação até que, em janeiro, a oficina Alinhavos finalmente aconteceu no Loteamento nuporanga, na parte alta de Maceió.

o bairro, também conhecido como Aeroclube, surgiu nos anos 1960, segundo o site História de Alagoas. parte da minha família chegou ali na década seguinte. eu cresci circulando por aquelas ruas. vi gerações se formarem. ouvi histórias se repetirem. o Nuporanga nunca foi apenas um lugar. pra gente, cada rua foi e é convivência. por isso, quando pensei na oficina de colagem, o tema já estava ali, na minha frente.

no dia da oficina, acordei mais cedo e revisei os materiais: tesouras, revistas antigas, fotografias impressas, cartolinas, cola. cheguei cedo ao espaço.

as crianças e jovens começaram a chegar aos poucos, na parte da tarde. algumas tímidas, outras mais curiosas. perguntavam o que iríamos fazer. eu respondia “vamos recortar e criar muita coisa legal”.

quando os primeiros papéis começaram a ser cortados, logo chegaram as conversas: alguém reconheceu uma rua numa fotografia, outra pessoa comentou sobre uma casa que já não existe mais. o território começou a aparecer nas mesas.

casas maiores que prédios, estádios de futebol, parques com brinquedos. céus atravessando ruas. árvores que cresciam sobre fotografias antigas. o bairro surgia reinventado — e profundamente reconhecível por nós. ali eu entendi que a colagem não era apenas uma técnica (que eu achava que já conhecia completamente), mas uma forma de reorganizar a nossa lembrança, de afirmar pertencimento, de olhar para o lugar onde se vive e dizer: isso também é imagem, isso também é narrativa.

no fim, as mesas estavam cheias de versões possíveis do Aero, cada uma com sua própria maneira de lembrar.

no total, foram produzidas 28 obras. fizemos além daquilo que imaginei ser possível para o dia. dia esse que virou noite, virou exposição, virou um dia pra ser lembrado sempre — e cobrado sempre, pois já me perguntam quando o Alinhavos volta pra lá. torço que em breve, muito em breve, voltemos a alinhavar

*todas as fotografias desta publicação foram feitas por mim e por jovens moradoras da região: Eduarda, Luiza e Grazielli.


O projeto foi realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura – MinC (@minc), operacionalizado pela Prefeitura de Maceió (@prefeiturademaceio), através da Secretaria de Cultura e Economia Criativa – SEMCE (@semcemaceio).

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laryssa andrade