todo dezembro, o cinema de Alagoas me chama de volta.
a Mostra Sururu de Cinema Alagoano não é apenas o momento mais esperado do ano para quem faz e pensa cinema no estado, ela também é, para mim, um lugar de retorno. mas, nos últimos tempos, tenho percebido que esse retorno não acontece apenas nas salas de exibição. ele se prolonga em outras imagens, mais silenciosas: aquelas que carrego comigo, que estão nos arquivos de família, nas fotografias guardadas. voltar à Mostra foi também voltar a essas imagens que, de alguma forma, já me ensinavam a olhar antes mesmo do cinema.
na 16ª edição, em 2025, essa sensação apareceu de maneira muito concreta. já escrevi antes sobre como a Mostra apareceu na minha trajetória, mas agora retorno por outro caminho, o das narrativas de si que encontrei nos filmes e debates. ao longo dos dias, uma pergunta parecia perseguir tudo: o que fazemos com as imagens que contam sobre nós?
no terceiro dia, no Arte Pajuçara, isso ficou especialmente evidente. a programação desenhava um percurso sensível entre pesquisa, filmes e experiências íntimas. a mesa Cinema & Pesquisa abriu o dia com uma conversa que me marcou por recusar separações rígidas: pensar cinema ali era também falar de carinho, de arquivos pessoais, de memória, de políticas públicas. saí com a sensação de que pesquisar cinema, em Alagoas, é quase sempre um gesto, onde ninguém está completamente de fora.
penso que esse gesto não começa necessariamente no cinema. ou, pelo menos, não começa apenas nele. ele já estava presente nas imagens domésticas, nesses registros muitas vezes considerados menores com os álbuns (des)organizados, os vídeos de família, os fragmentos de cotidiano que guardamos sem saber exatamente por quê. ao ver os filmes da Mostra, tive a sensação de que eles ativam algo que eu já conhecia — uma memória não linear, feita de restos, de gestos, de presenças e ausências. as imagens domésticas operam assim, não como arquivos “fechados”, mas como disparadoras de outras histórias possíveis.
essa percepção reverberou nos filmes da Mostra Paralela e, mais tarde, na Competitiva. em obras que partem do território, da família e das experiências cotidianas, encontrei no nosso cinema essa insistência em permanecer. em Logger, Paulo Silver filma seu entorno sem a necessidade de explicar, apenas estando ali, olhando de novo. em Bolacheiras, de Luiza Leal, o eu se constrói no encontro, acompanhando histórias e afetos que resistem ao apagamento. já em Crônicas Sobre os Cinemas de Bairro, Beatriz Vilela revisita Maceió a partir da memória, lembrando que o cinema também é feito de perdas.
esses filmes me fizeram pensar que as narrativas de si, no cinema alagoano, são formas de se colocar em relação com a cidade, com o outro, com a memória coletiva. ao falar de si, esses filmes falam da gente.
![]() |
no fim do dia, saí da Mostra com a sensação de que a chamada Trama Alagoana, tema da edição, não foi uma metáfora solta. ela (realmente) se constrói de filmes, pesquisas, encontros, conversas. talvez seja por isso que tenho sentido a necessidade de me aproximar cada vez mais dessas imagens, inclusive através do Projeto Alinhavos.
pensá-las não como algo do passado, mas como matéria viva, em constante reinscrição. porque, no fim, falar de imagens domésticas é também falar de como lembramos, de como partilhamos e de como seguimos construindo sentido a partir do que ficou. se a Mostra me convoca a olhar, são essas imagens que me ensinam a permanecer, num movimento contínuo de retorno, onde ver, guardar e reescrever deixam de ser etapas separadas e passam a fazer parte do mesmo gesto.
graças ao Alagoar, convidada pela Larissa Lisboa, pude escrever crônicas sobre esses sentimentos e deixo o link aqui para que vocês conheçam a nossa janela do audiovisual alagoano.
nesse caminho bonito, as inscrições para a 17ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano seguem abertas. mais infos, no perfil do instagram @mostrasururu. estou ansiosa pra participar e registrar mais um ano dessa iniciativa tão potente e especial.





Postar um comentário